A dificuldade da flor da idade

Fabiana Pardini Blanco

Ao passar pela porta avisto uma pessoa frágil sentada na cadeira. Tão solitária. Tive a impressão de que naquela casa havia sempre muitas pessoas e risos, mas hoje já não era igual. Aquela pessoa estava completamente só. Ao ver-me, sorriu como se eu fosse algum parente ou uma pessoa que ela tinha muita adoração.

Fui chegando mais perto, era uma senhora de cabelo grisalho e pele pálida. Perguntei-lhe se precisava de algo e, após muito esforço para falar, ela disse que estava na hora dos remédios e pediu-me que os pegasse. Fui aflita pegar o remédio daquela jovem senhora, fazendo movimentos leves para que ela não percebesse meu nervosismo.

Ao dar os remédios, perguntei-lhe se gostaria de algo mais. Ela fez um não com a cabeça e eu me movi calmamente em direção à porta. Antes de sair, olhei novamente para aquela senhora e percebi sua tristeza ao ver-me partir. Quase avisto uma lágrima caindo de seu rosto pálido.

Ao sair da casa, bateu-me uma tristeza e sensação de que eu não poderia ajudá-la. Muitas perguntas passavam pela minha cabeça: como pode aquela senhora ficar ali sozinha, sem ao menos ter forca para pegar seus remédios? Como ela iria fazer quando passasse mal? Iria ficar ali esperando que alguém ouvisse seus gritos silenciosos?

Realmente, fiquei chocada e o que mais me incomodava é que esta cena se repetia com muitos idosos. Uma coisa é certa: nascemos, crescemos, envelhecemos e morremos, este é o ciclo da vida. Passamos a vida inteira em busca de algo, de reconhecimento profissional, de felicidade, de uma família, de soluções e de independência.

O despreparo para viver as diferentes etapas da vida mostra a falta de conhecimento. A falta de compreensão indica que nem sempre temos condições de entender e acompanhar essas mudanças que nos são impostas. Cada etapa representa algo novo e devemos saber que o modo como agimos, os hábitos que adquirimos e os cuidados que temos são decisivos para cada etapa da vida.

No entanto, parece que ao envelhecermos voltamos à estaca zero e temos que recomeçar. Nessa fase nossas estruturas já não são as mesmas devido aos desgastes que passamos durante a vida: o corpo fica mais lento, a saúde mais precária, menos força física, perda de massa muscular, os ossos diminuem e os sentidos não são mais tão aguçados como antes. Nosso organismo passa a ter diversas limitações. E este é um processo que se torna um fardo para muitos.

Independentemente do idoso, muitos necessitam de cuidadores, pois podem ter problemas como: estresse emocional e psicológico, desgaste físico, doenças e dependência a remédios.

A dificuldade financeira e emocional impede que idosos tenham um tratamento adequado, preocupando familiares e profissionais. Por isso, os idosos permanecem em casa, com ou sem ninguém que possa lhe auxiliar, e em outras situações vão morar em instituições ou asilos. Porém, muitas vezes, as entidades são caras, levando as famílias a procurarem alternativas que sejam acessíveis ao seu nível econômico, como os chamados “cuidadores”.

 

O valor da família

Antigamente, o papel da família era cuidar do idoso, porém os filhos adultos estão cada vez mais sem tempo para viver e cuidar de seus pais por trabalharem ou não quererem, podendo levar os pais idosos ao asilamento ou abandono.

Na velhice, enquanto há saúde, há maior independência e autonomia. O idoso possui mais facilidade e disposição para preencher seu tempo, mantendo relações sociais e realizando atividades pessoais, fazendo com que seu sentimento de tristeza e abandono fique mais distante.

Por outro lado, a fragilidade das relações, negligência, perdas afetivas, ausência de trabalho e doenças trazem sofrimento e faz com que o idoso perca seu status de trabalhador, significando estado de dependência e inutilidade. Sendo assim, a necessidade de cuidados pode fazer com que ele se sinta excluído da família, desvalorizado, tratado com desrespeito.

Para isso, é necessário que a família esteja fortalecida, sendo por convivência e pelos laços afetivos, pois a doença e dificuldades provocam diversas sensações no idoso, fazendo com que ele fique sem apoio, passando por necessidades e precisando de alguém que cuide dele.

Na visão dos idosos, o abandono na velhice se dá em sentimentos de tristeza e solidão, por circunstâncias relativas às perdas, as quais se refletem em deficiências funcionais do organismo e na fragilidade de relações afetivas e sociais.

Estar indefeso, a ausência de afetos e de comunicação conduz o idoso a um distanciamento, mudando seus estímulos de interação social e de interesse pela própria vida. Sente-se abandonado, triste, amargurado, angustiado, desanimado e melancólico.

Em muitos casos, a família é a solução para se evitar o sentimento de abandono. Porém, depende do vínculo estabelecido e da força dessas relações. Para o idoso, a família é a esperança: espera-se o acolhimento, a presença e o carinho. A família é o grupo social que insere o idoso no mundo, representando o vínculo do ser humano com a sociedade e carrega os valores que sustentam a relação social, evitando-se o isolamento.

O idoso crê que a família seja seu alicerce e que possa lhe dar a atenção necessária para enfrentar os problemas. Espera o retorno do que já fizeram por ela. Espera compartilhar suas experiências e conhecimentos obtidos ao longo de sua vida, busca entender o motivo da distância emocional entre as pessoas e seus sentimentos, e o que o separa dos outros seres humanos no momento em que precisa ser apoiado.

Vida real

A cuidadora Vânia Alves Lopes que já teve experiência com idosos de sua família, como a sogra e a mãe, cuida de Dário Rocha Neto, de 84 anos, há cinco meses.

Vânia ainda não fez o curso de capacitação e foi contratada para fazer o básico, como caminhadas, dar remédios e acompanhá-lo. Além dela, ainda tem mais duas cuidadoras que o auxiliam em cada período do dia e profissionais, como fisioterapeutas, fonoaudióloga e psicóloga. Por ter duas doenças, a de Alzheimer e a de Parkinson, o acompanhamento de cuidadores e profissionais se fazem necessários na vida de Dário.

“Feliz é aquele que tem alguém que tome conta”, responde Dário ao ser perguntado sobre o que ele acha de ter cuidadores. É viúvo, sua família mora em Mato Grosso e a cada dia tem um cuidador por perto para qualquer eventualidade. Porém estar sempre acompanhado o incomoda um pouco, pois gosta de ter liberdade.

O ponto de vista dos profissionais

Em busca de maiores informações sobre esse assunto, procurei o fisioterapeuta Joel Carpes da Silva, de 54 anos. Seu papel é prevenir doenças, saber quais cuidados são necessários a partir da situação do indivíduo, saber trabalhar com horários e doses de medicamentos, com higienização e manter o equilíbrio.

Para ele, é preciso ter a habilidade necessária, não ultrapassar os limites do paciente, obedecer às ordens médicas e entender bem o funcionamento do organismo humano, antes de se responsabilizar em cuidar de um idoso. É importante que a pessoa seja qualificada, não importa a idade, e que tenha força física, pois em muitos casos é preciso levantar o idoso, dar banho, entre outras atividades.

Ao falar de seus pacientes, sinto cuidado na fala e adoração com o que faz. Joel explica que a pior coisa que envolve seu trabalho é o paciente ficar na cama porque perde massa óssea e muscular, comprometendo o pulmão e perdendo a resistência. Para evitar essa situação, é preciso fazer exercícios.

As doenças mais frequentes nos idosos é o AVC (derrame), infarto do miocárdio, doenças renais, diabetes, hipertensão e esclerose. E as que causam mais dependência são a doença de Alzheimer, de Parkinson, o acidente vascular cerebral, a insuficiência cardíaca e o câncer.

Entre as pessoas que procuram seu trabalho estão a família de classe média alta porque, infelizmente, o gasto é alto e geralmente tem que ter duas pessoas para cuidar (uma de dia, outra à noite) ou se possível uma só em período integral, fora os tratamentos médicos e profissionais.

Por exemplo, o salário base de um fisioterapeuta é de R$ 1.600. Em alguns casos há acordos com as famílias devido ao preço do tratamento. Já o de um cuidador qualificado, ou seja, um que tenha feito o curso, é em torno de R$ 900 a R$ 1.000.

A demanda desse tipo de serviço vem crescendo ao longo dos anos, principalmente em cidades como Santos, onde há muitos aposentados e idosos com um nível de vida muito bom, tornando esse serviço necessário e que haja pessoas qualificadas para cuidar de idosos. Para se tornar um “cuidador” é preciso fazer um curso denominado “cuidadores de idosos”.

Manual e curso para cuidadores

No “Manual dos formadores de cuidadores de pessoas idosas”, da Secretaria Estadual de Assistência e Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo, há com clareza quais são os procedimentos que os cuidadores irão aprender ao longo do curso, desde os eixos norteadores até o desenvolvimento de atividades diárias do idoso.

Além do desenvolvimento de um conjunto de informações padronizadas que visam auxiliar a capacitação homogênea dos cuidadores, permitindo que essa “ocupação” evolua para profissão com um pessoal bem preparado e numericamente disponível para atender às demandas.

A iniciativa desse manual contribui para o desenvolvimento de ações planejadas e programadas que visem à construção de uma rede de atenção e cuidados às pessoas idosas que lhes permita envelhecer sem temeridade, com dignidade e respeito.

Está escrito no manual que “A dependência aumenta a demanda por serviços sociais e de saúde. Assistir o idoso dependente pode ser uma tarefa fisicamente extenuante, pois em geral implica sobrecarga da família, que costuma ser a principal provedora de atenção a idosos portadores de incapacidades”, definindo o trabalho do cuidador.

Segundo a enfermeira e coordenadora do curso de enfermagem da UniSantos, Márcia Melzer, o curso é dado para quem estiver interessado e não é necessário ter conhecimento em determinadas áreas.

O curso ensina a ética do cuidado, a cuidar do outro com responsabilidade, agregando valores para o cuidador, pois este passa a “sair de si” para ajudar e zelar pelo bem-estar do outro e as aulas são realizadas por especialistas formados.

Há um profissional especializado para cada processo que a pessoa idosa passa, porém, o papel do cuidador é fundamental para aquele que é dependente.

Cuidado qualificado

Ao procurar maior conhecimento, encontrei o site cuidardeidosos.com.br. Entrei em contato com o geriatra especialista e editor do site cuidardeidosos.com.br, Márcio Borges, que explicou que o portal é fruto de sua parceria com Mayer Salomão e Tiago Curcio, e que tem a base em Juiz de Fora – Minas Gerais, porém recebem acessos de todos os países de língua portuguesa. O site chega a ter três mil internautas/dia e tem como objetivo levar todo o tipo de informação relacionada a cuidar de um idoso dependente.

Se um idoso for dependente, não apresentando condições de autocuidado e de autonomia, e sua família não consegue arcar com estes cuidados, a alternativa é a contratação de um cuidador profissional. E assim, como qualquer profissional, a mão de obra qualificada é fundamental, ainda mais se tratando de uma pessoa idosa, um familiar.

Então, para ser um cuidador, deve-se fazer um curso de capacitação em uma instituição de boa qualidade e zelar pelo bem-estar, saúde, alimentação, higiene pessoal, educação, cultura, recreação e lazer da pessoa assistida. Claro que há uma maneira certa de lidar e cuidar de idosos, mas não depende da idade e sim de sua experiência de trabalho e dos cursos de capacitação.

Além disso, a dependência e a perda de autonomia amenizam a possível estranheza do idoso com o cuidador contratado, porém é importante que o cuidador tenha a preocupação de ser agradável e de conquistar a confiança do idoso e da sua família.

Caso não haja a qualificação do cuidador, podem-se ocorrer riscos inerentes à qualidade do cuidado oferecido ao idoso, como a piora de seu quadro de saúde, junto ao perigo de probabilidade de maus tratos, de ordem psicológica ou física.

Segundo Márcio, familiares e cuidadores de idosos de alta dependência perfazem 80% do tráfego no site, além de profissionais e estudantes da área de saúde, que estão ávidos de informações, de dicas e buscam informações de como contratar e orientar os cuidadores profissionais contratados.

A demanda desse serviço vem crescendo ao longo dos anos, pois o envelhecimento da população brasileira é um fato, com aproximadamente 21 milhões de idosos. Destes, 10% tornam-se dependentes devido a problemas com doenças. É esperado, ainda, que estes números dobrem nos próximos 15-20 anos e, aí sim, será necessário cuidadores muito bem capacitados e experientes.

Márcio finaliza entrando em um assunto delicado, o uso de câmeras escondidas. Para ele, uma família bem orientada é capaz de saber contratar e acompanhar o trabalho de um cuidador e poderá lançar mão deste tipo de vigilância. Já os maus tratos em idosos ocorrem devido à junção de uma família ausente com a contratação de um cuidador mal remunerado e não capacitado.

 

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