Pesadelo real, atentado ao sono

Fabiana Pardini Blanco

Era uma manhã cinzenta. Não sabíamos se havia um sol nos guiando, pois não se via mais nada. Apenas uma imensa fumaça sobre nós. Ao fundo, uma voz anunciava a vinda do segundo avião.

Assustada, olho para a janela. “Mas que raio de segundo avião?”, pensei rapidamente. Foi apenas o tempo de ver o segundo avião indo de encontro à segunda torre do World Trade Center. “Mas o que está acontecendo?”, é a pergunta que ouço da maioria das pessoas presentes naquele vagão.

Eu estava no meio de um caos, em um vagão de um trem ou metrô – não sei ao certo – e ele estava em uma via suspensa. Daquelas que não tem para aonde fugir. Não havia nada ao lado, nenhuma via em que pudéssemos recorrer e sair dali.

Olhei para o meu lado e vi duas lindas crianças. Uma estava aflita tentando entender o que estava acontecendo, mas a idade da outra – a caçula -, não permitia que ela pudesse entender. Melhor assim!

Vi os pais das meninas aflitos, procurando uma maneira de fugir dali e salvar suas meninas. Senti as dores e o desespero deles. Gritei para procurarem algum lugar seguro para que as meninas não sentissem tanto os impactos dos escombros que estavam por vir. Enquanto isso, as segurei firme contra o meu corpo. Não podia deixá-las correr atrás dos pais. Tinha que mantê-las seguras, junto a mim, até que tivessem outra alternativa.

Segundos depois, o pai aflito voltou correndo – não avistei mais a mãe – e apenas me olhou. Vi em seu olhar que não havia nada a ser feito. Os escombros já estavam perto demais. Restava orar e pedir a Deus que protegesse todas aquelas pessoas.

Após alguns sufocantes minutos, aquela névoa havia tomado conta do vagão. Eu continuava respirando. E desesperada, olhei para a mais nova. Percebi que ela estava respirando também. Meu Deus, havíamos nos salvado!

Mas algo estava errado. Ficamos algumas horas procurando mais alguém vivo. Alguém que pudesse juntar forças e pedir resgate. Horas em vão. Não havia mais ninguém que pudesse nos ajudar. Como assim? Éramos os únicos sobreviventes.

Saímos do vagão em busca de ar.

No topo daquele desastre, podíamos ver o caos instalado. Barulhos de ambulâncias, gritos e fumaça. Muita fumaça. O que havia acontecido ali, ninguém saberia dizer. Uma cena que nenhum ser humano deveria ver, muito menos estar sentindo na pele. Parecia o fim do mundo!

Por diversas vezes tentei acordar daquele pesadelo – era um pesadelo, não era? -. Peguei a mão da caçula e a levei para dentro do vagão. Parecia-me uma boa ideia. Não desejava que a pequena se recordasse daquela cena com tão pouca idade. O pai delas, pegou a maiorzinha e entrou comigo – deve ter pensado a mesma coisa.

Não entendia o que eu estava fazendo ali e o motivo de estar ajudando aquela família. Afinal, por que eu estava envolvida? Precisava salvá-los! Precisava de alguma informação sobre o que estava acontecendo.

Voltei para buscar nossos documentos. Tinha que ter alguma coisa em minha bolsa que pudesse nos dar uma pista. Comecei a esvaziá-la procurando algo que eu mesma não sabia. Estava desesperada.

Jogado em um canto do vagão, avisto um pedaço de papel. Era um jornal e a matéria de destaque informava sobre um atentado ao World Trade Center, que matou inúmeras pessoas em 2001. Todas aquelas informações batiam com o que eu estava vivenciando. E no final daquela matéria especial, havia as fotos das vítimas e uma homenagem.

Por um momento fechei os olhos. “Que eu não encontre a foto das meninas, que não tenha a foto delas”, desejei fortemente. Entretanto, o que eu temia estava lá, bem nítido e claro. Era uma foto daquela família. “Meu Deus! Como vou contar a eles? Eu devo contar?”. Eles estavam ali do meu lado, eram tão reais! Como não tinham sobrevivido?

Olhei a data do jornal, estávamos em 2013. Foi, então, que tive a certeza de que suas almas estavam vagando naquele lugar, procurando alguma resposta ou algo que pudesse salvá-los. Talvez, era eu quem eles procuravam. Eu tinha que dar a notícia para eles. Desesperei-me. Como deveria fazer isso, quem acaba com os sonhos das pessoas desse jeito cruel?

Enquanto eu confrontava minha consciência, a filha mais velha veio ao meu encontro. Ela viu aquela foto e se reconheceu. Gritou para que seu pai pudesse vir e ler a matéria. E ele veio. Minha reação foi a das piores! Não consegui confortar aquela família – não confortava nem a mim – as únicas palavras que saíram de minha boca foram “sinto muito”. E eu sentia mesmo! Aquela família se tornou o meu desejo de me ver livre daquele pesadelo. Queria trazê-los comigo para a minha realidade, mas não pude.

Tive que presenciar todo aquele fato. Acredito que eu precisava ajudá-los a seguir em frente. Mas quem irá me ajudar agora? Como esquecer todas aquelas emoções que senti na pele? Como esquecer a expressão daquele pai quando descobriu que falhou na missão de proteger suas filhas? Como uma fatalidade pôde destruir inúmeras famílias como aquela?

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