Sem grilo, a largatixa foi pro mato

Para a Revista Arco/UniSantos – de Fabiana Pardini, Jéssyca Rolemberg, Juliana Vieira e Vanessa Luiz

A última casa da Rua Aparecido Ferreira Vidal, também chamada de Rua 14, no bairro das Posses, fica distante de todo o roteiro turístico e comercial da interiorana Serra Negra. Localizada a 153 km da Grande São Paulo e com aproximadamente 27 mil habitantes, a cidade acolheu mais um morador no ano de 2011. No topo de um morro, que beira a estrada de terra, há uma casa – a única da rua -, construída em um terreno irregular, com grandes janelas e extensa área verde. A cada estação nascem no quintal acerolas, seriguelas, mangas, jabuticabas e mexericas. É aí que vive José Roberto Fidalgo. Um cenário improvável para o jornalista que nasceu e viveu em Santos, e aos 58 anos decidiu trocar o mar pelo mato.

Para muita gente, uma decisão como esta seria difícil. Para Fidalgo, não. Mudar a rotina por completo foi simples, mas nem ele mesmo sabe explicar por que ocorreu. O certo é que Santos já não correspondia às expectativas de quem viveu um período da cidade em que o sindicalismo, as ideias de vanguarda e o cenário cultural eram marcantes. Ele já não conseguia conviver com a expansão imobiliária desenfreada e as novas prioridades dos santistas

“De repente, a cidade começou a mudar. As pessoas mudam, as direções mudam”, comenta Fidalgo. “E, enfim, você começa a ficar incomodado com algumas coisas da cidade”. Assim, ele acabou seguindo um conselho da mãe, que dizia “os incomodados que se mudem”.

Serra Negra foi escolhida por acaso. Ao passar uns dias na casa de um amigo, ele simpatizou com a cidade e começou a procurar um lugar para morar. Conseguiu, mas não se livrou dos problemas. Se na cidade passava o dia com inúmeras tarefas a serem resolvidas, no interior não é diferente. Aposentado, continua escrevendo, mas agora também se dedica a trabalhos braçais. Cuida do terreno, das plantas e de seus cães e pássaros.

A tentativa de exílio, a busca por novos ares, não é novidade na vida de Fidalgo. Durante a juventude, se aventurou e tentou viver refugiado nas praias do litoral paulista, em um tipo de comunidade hippie. Lá, todos tinham atividades estabelecidas. Uns caçavam, outros pescavam, alguns cultivavam a horta e outros realizavam trabalhos manuais. Fidalgo percebeu, então, que não se encaixava nesse meio, porque “não tinha o dom” para nenhuma dessas atividades. Sua vocação, de fato, era para a escrita. Demorou apenas seis meses para a urbanidade da qual tinha fugido fazer falta e ele retornar a Santos.

Assim como o acaso o levou para Serra Negra, também determinou sua escolha profissional. Fidalgo conta que, no vestibular, todos os seus amigos buscavam o curso de Engenharia, principalmente pelo status. Para não ser diferente dos demais, ele também esteve em busca dessa formação, que abandonou depois de quatro meses de cursinho. “Não tem matemática? É esse que eu vou fazer”, referindo-se ao curso de Jornalismo.

A escolha, aparentemente, foi correta. Para ele, o jornalismo representou a sobrevivência. “Eu não sei fazer mais nada, não sei fazer pastel, não sei ser pedreiro. Só sei, realmente, escrever”.

Embora tivesse facilidade com o texto, as limitações exigidas pelos meios de comunicação dificultavam suas criações. Escrever tornou-se algo penoso. Era difícil se adequar às regras impostas pelo texto jornalístico. Por essa razão, sua preferência sempre foram os textos livres, soltos e sem amarras. Literários. “Escrever como escrevo hoje é uma forma de lidar com a vida. É uma maneira de colocar as coisas em perspectiva”, avalia.

Fidalgo se mantém próximo das palavras por meio de um blog, chamado O Ano da Lagartixa. Ele surgiu da ideia de publicar um de seus livros em vários episódios. Foi uma válvula de escape para fugir da rotina e da “parte pesada” do jornalismo.

As influências de seus textos incluíram desde ídolos do rock até escritores “malditos”. Na década de 60, a música da contracultura trazia linguagem simples, e temas que não eram comuns em canções populares, como carros, pontos de ônibus, sanduíches. Fidalgo se impressionou com isso. “Minha formação política e filosófica foi através da música”. Do rock, mais especificamente.

Há quem diga que seus textos têm influência da literatura beat dos anos 50, mas ele diz que já escrevia num estilo semelhante antes mesmo de conhecer os autores deste movimento literário. Além disso, viveu na era da ditadura militar, quando muitos autores e compositores tinham que fugir da censura utilizando metáforas. Daí vem o gosto pela linguagem enigmática e as histórias misteriosas, cheias de situações inusitadas.

Ao falar dos escritores que mais admira, Fidalgo destaca o norte-americano Henry Miller, que seduzia os jovens com textos carregados de sexualidade. Foi uma mistura de influências que tornou sua escrita diferente do padrão e o ajudou em sua fuga da objetividade.

Fidalgo percebeu que, juntando os diversos textos que havia escrito, poderia lançar um livro. Foi assim que surgiu sua primeira obra, O Ano da Lagartixa, lançado em 2006, que também deu nome ao blog. Com 200 exemplares, o livro teve um lançamento convencional, na livraria Realejo, em Santos. Já no segundo, João e Jeremias – A Porra da História, de 2009, decidiu não fazer lançamento, disponibilizando apenas 50 exemplares para venda pela Internet.

Hoje, ele possui um projeto, em parceria com o amigo Gilvan Gomes, relacionado à música e poesia. A Porra da Cidade conta as experiências de dois santistas frustrados e a relação de amor e ódio deles com Santos.

Casado pela segunda vez, Fidalgo tem dois filhos e dois enteados, com quem mantém contato. Aproveita a tecnologia atual para se comunicar com eles. É um dos poucos pontos positivos que ainda vê na vida urbana.

Há quase dois anos morando em Serra Negra, o futuro do aposentado José Roberto Fidalgo é uma dúvida até para ele mesmo. Não sabe dizer se ficará na cidade até morrer, ou se antes disso voltará a se exilar em algum outro lugar. Como menciona em O Ano da Lagartixa, quem sabe se, durante a busca por um lugar que o inspire a escrever, ele não encontrará o esconderijo perfeito.

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